Testosterona oral: livre de riscos?

Carla Moura

Médica Endocrinologista – CRM – PE 22909 / RQE 10848

É cada vez mais frequente o uso de androgênios em homens e mulheres para fins estéticos. Os esteroides anabolizantes são procurados e ofertados sob a premissa de ganho de massa muscular, redução de gordura corporal, aumento da libido e melhor desempenho nos exercícios. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o uso de esteroides para essas finalidades é muitas vezes ineficaz e associado a efeitos colaterais, sendo uma prática reprovada pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia.

O uso de esteroides androgênios é indicado para reposição hormonal em homens com deficiência de hormônio masculino. Em mulheres pós menopausa, o uso de testosterona via transdérmica pode ser uma opção para o tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, condição com critérios diagnósticos restritos. Ainda assim, nesse último caso, não existe estudo de segurança a longo prazo com a medicação.

No Brasil, não é comercialmente disponível a testosterona oral, a não ser de forma manipulada. As cápsulas de undecanoato de testosterona oral estão disponíveis fora do país desde o final da década de 1970 e foram recentemente reformuladas para melhorar a estabilidade farmacêutica.  É o único preparo para uso oral que permite a liberação de testosterona para a circulação sistêmica por meio da absorção linfática. Vários estudos farmacocinéticos demonstraram que a nova formulação de testosterona oral é capaz de restaurar os níveis de testosterona sérica para valores dentro da faixa fisiológica. Tais propriedades não são asseguradas em outras apresentações.

Mas é preciso ficar atento com algumas propagandas. Afinal, o uso da testosterona oral é livre de riscos? Deve ser utilizada para homens e mulheres saudáveis?

O uso do Undecanoato de Testosterona oral é uma forma segura e eficaz de reposição hormonal em homens com hipogonadismo, mas mesmo nesses pacientes é preciso ter cuidado. Um ponto de cautela, como com todas as preparações de androgênio, é um risco de aumento de hematócrito, especialmente em pacientes tratados com altas doses de testosterona.  Vale ressaltar que existem situações com contraindicação absoluta do uso de esteroides androgênicos como por exemplo história de câncer de próstata, valor do PSA elevado, níveis aumentados do hematócrito, insuficiência cardíaca grave e apneia obstrutiva do sono não tratada.

Em mulheres, os estudos com testosterona oral são escassos, além disso, englobam uma pequena amostra de pacientes por um período curto de seguimento, desta forma, o efeito a longo prazo da medicação permanece incerto.

Diante do exposto, fica evidente que o uso de testosterona deve ser limitado as situações com clara indicação para seu uso, necessitando ainda de acompanhamento por profissional habilitado, reduzindo os riscos envolvidos. Tem dúvidas? Procure um endocrinologista.

 

Referências:

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